O antes e o depois da cirurgia bariátrica


Acho que ligaram o acelerador do mundo, afinal, nem acredito que já se passou um ano da minha cirurgia. Lembro perfeitamente do Dr. Marcelo me retirando do quarto, caminhando de maca pelos corredores do hospital, das conversas na sala de cirurgia até o momento da anestesia, do retorno ao quarto, das caminhadas pelos corredores do hospital, do regresso pra casa, da odiosa fase do caldinho (a pior de todas), da papinha, do último pedaço de pancetta que devorei no carnaval etc. Ou seja, lembro-me de toda evolução e revolução na minha vida.

E para ajudar a memória, ainda tenho minhas aparições como personagem no programa Bem Estar. Que absurda mudança! Quando vejo, é difícil acreditar que estava daquele tamanho e era detentor de uma fome anormal. Acho que até a fome do Tiranossauro Rex era pouca perto da minha.

Um ano após, acho que meus relatos, modéstia a parte, podem servir como a comprovação de que a obesidade é muito mais do que a simples falta de controle alimentar: é realmente uma doença como tantas outras e precisa ser tratada de forma correta, seja com utilização de remédio ou, nos casos extremos, quando há orientação médica, por intermédio da cirurgia.

Isso porque ocorreu comigo e acredito que isso ocorre com várias outras pessoas. Quando engordamos, comemos sem parar, mesmo sabendo que não deveríamos e passamos a ter uma cobrança pessoal muito intensa. Uma parte de nós sabe que não devemos fazer o que estamos fazendo e a outra parte não consegue controlar a fome. É uma luta interna, difícil de descrever, mas quem enfrenta a obesidade sabe como é.

Ao longo dos anos, essa luta interna, que na maioria das vezes é ganha pela parte predadora que existe dentro de nós, acarreta no obeso o sentimento de fraqueza e impotência, o que é visto, muitas vezes, como falta de vontade, de vaidade, preguiça etc, pois como pode uma pessoa ganhar peso, comer feito um louco sabendo que isso não é saudável?

E esse questionamento acompanha grande parte dos obesos, afinal, qualquer gordo sabe que não deveria comer o quanto come, porém não consegue deixar de devorar tudo que aparece pela frente, é realmente uma briga interna violente. Nunca fui viciado em droga ilícita, mas penso que essa guerra mental seja semelhante ao que ocorre com os viciados, pois muitos sabem que não devem se drogar, mas não conseguem deixar de fazer isso.

Não que alimento seja uma droga, mas talvez exista algo relacionado ao vício em comer, a compulsão ou sei lá o que. Sei apenas que há algo diferente no obeso que é muito além do simples desejo de comer, da falta de vontade etc.

No meu caso, antes de operar já tinha passado por todas as fases, já fui uma pessoa mais magra do que “em forma”, depois uma pessoa mais “em forma”, posteriormente um “gordo normal”, depois passei a ser um “cheinho”, voltei a engordar e por alguns anos fiquei sendo uma sanfona, até começar a engordar excessivamente, ficar gigantão e entrar na faca.

Durante esses anos visitei os mais diversos médicos e tentei realizar os mais diferentes tipos de regime, tanto aqueles saudáveis como aqueles sem qualquer critério, cujo único efeito foi o ganho de peso em quantidade muito maior do que havia sido perdido.

Remédio também utilizei, mas não me adaptei bem. Muito pelo contrário, acho que as fórmulas deveriam conter algo que termina em “…ina”, pois ficava irritado, agitado, faltava atenção etc. Ou seja, não tive bons resultados, mas tentei.

No entanto, o corpo é uma maquina em constante movimento e a forma inadequada do seu uso foi gerando ao longo dos anos problemas. Antes de operar, já estava com grau elevado de gordura no fígado (esteatose) e com alterações nos exames de sangue, inclusive com algo denominado de pré-diabete, sem falar no ronco altíssimo. Na verdade, se tivesse continuado no ritmo que estava, certamente teria problemas de saúde graves.

Ah! Sei que muitos pensam com relação à parte estética, mas como já falei, nunca fui e até hoje sou uma pessoa que nunca liguei muito para isso, nunca tive problema algum em ser gordo, sempre tive uma vida social normal, então nunca procurei nenhum médico por questões exclusivamente estéticas. Mas é lógico que, para o padrão da sociedade, estava fora do parâmetro.

Digo isso porque, se fosse me preocupar com estética, teria que ter uma banca de médicos! Quer ponto de referência maior do que gordo, careca, de óculos e usando aparelho? kkkkk

Mas a grande mudança ocorreu quando resolvi realmente encarar a obesidade como uma doença qualquer, sem qualquer preconceito ou pensamento de punição própria. Passei a aceitar que o fato de ser gordo deveria estar relacionado muito mais com fatores alheios às minhas próprias vontades. E acho que estava certo!

Era uma pessoa desregrada, comia pessimamente, não tomava café da manhã, não tinha horário para refeições, bebia mais refrigerante do que água. Ou seja, mesmo gostando muito de verduras e alimentos saudáveis, o meu hábito alimentar era realmente de um obeso, pois a alimentação errada, que poderia ser utilizada em um dia da semana ou algo assim, era a que fazia parte do meu cotidiano. Mas já havia tentando mudar isso várias vezes e a fome não permitia, era algo mais forte.

Então procurei um profissional capacitado, no caso o Dr. Marcelo e toda sua equipe, que informou da possibilidade em realizar a cirurgia bariátrica, fato que aceitei somente após refletir e pesquisar muito sobre o tema e estar com todos os exames (foram mais de 15 no total).

E resolvi operar após percorrer todos os caminhos que deveriam ser realizados por quem quer realizar a cirurgia, especialmente a consulta psicológica, que parece ser bobagem, mas é fundamental. E além do psicológico, fiz consulta com psiquiatra, pois operar não é algo simples como muitos acham.

O procedimento cirúrgico é sério. No meu caso, retirei um pedaço do estômago. Há o risco de problemas na sala de cirurgia, na recuperação e tantos outros. Exemplos tristes não faltam, por isso foi importante a pesquisa que realizei oorque possibilitou avaliar tudo que teria de positivo, negativo e os riscos da cirurgia.

Ou seja, operar não é uma escolha simples, não é um procedimento estético e não pode ser visto como uma forma de vaidade. Muito pelo contrário, é um procedimento com riscos elevados. É preciso ter todos os exames em ordem, ser cuidado por uma boa equipe médica, fazer uma programação para os meses futuros em que a dieta é drástica e principalmente ter muita sorte para não sofrer nenhum problema em decorrência da cirurgia, pois há risco e isso nunca pode ser esquecido.

É fundamental, também, ter o apoio das pessoas que convivem com o operado, pois após a cirurgia a dieta precisa ser feita como a nutricionista informa. Não é aconselhável alimentos congelados e tudo deve ser feito com base em pesos e medidas, portanto é importante contar com a ajuda dos familiares. Posso dizer que fui abençoado, todos meus familiares me apoiaram e cuidaram de mim nessa fase tão complicada. Tenho certeza que se não tivesse tido esse apoio o resultado não seria tão bom.

Mas, após exatamente um ano, hoje em dia colho o resultado da cirurgia, todos meus exames estão dentro dos parâmetros normais. Porém, a grande mudança ocorreu no meu organismo e foi isso que me fez ter a certeza que minha fome descomunal era uma doença, pois hoje em dia tenho e sinto fome como qualquer pessoa normal, mas não tenho mais o desejo/necessidade de comer sem parar. A sensação de “saco furado” deixou de existir, hoje em dia como o que deveria ter comido a vida toda e não conseguia.

E, como consequência da perda da fome anormal, estou conseguindo mudar o hábito de vida, tento ser fiel aos horários das refeições, dou preferência por alimentos saudáveis, faço exercícios físicos e ainda consigo dar uma escapadinha, pois continuo tendo o mesmo prazer em comer.

Comparando o antes e o depois da cirurgia bariátrica, acredito que realmente era doente, pois na técnica que utilizei, o pedaço do meu estômago que foi retirado era o responsável pela produção do hormônio da fome, um tal de grelina, e acho que era esse maldito hormônio que meu organismo produzia em excesso, afinal minha sensação de fome era absurdamente grande. E como hoje em dia, mesmo no dia seguinte da operação ou no período mais penoso (dieta líquida) não tive e não tenho a vontade louca de comer sem parar, só posso concluir que minha doença foi resolvida quando foi estancado o defeito que tinha na produção desse tal hormônio.

E hoje a certeza é ainda maior, pois já posso comer e como de tudo, tenho uma vida de pessoa normal, dou minhas escapadas calóricas, mas tudo com moderação e a fome descomunal não existe mais. Como realmente o suficiente para me dar prazer e servir como combustível para o meu organismo. Deixei de comer feito um Tiranossauro Rex e me alimento com um ser humano normal.

É fato, também, como listei no último post, que há o lado bom e o ruim, mas satisfeito, até pela minha mudança. Hoje tento comer algo a cada três/quatro horas, nem que seja uma bolacha, evito refrigerantes, mastigo muito e frequento academia. Ou seja, minha vida realmente mudou no quesito alimentação, passei a ser outra pessoa, mas foi fundamental entender que a obesidade que tinha não era fruto da minha má vontade, era realmente uma doença que foi tratada e com a utilização da técnica correta.

Após um ano de operado, se pudesse dar uma dica seria para quem está obeso procurar um médico, tentar de tudo para emagrecer, mesmo que isso seja um processo demorado. Até porque será mais duradouro. Tem que acreditar que a única certeza com relação às dietas milagrosas é que elas não existem. Fórmula mágica também não existe e é muito perigoso.

Agora a verdade é que o fato de ter feito a cirurgia não é sinônimo de garantia eterna de que não serei mais obeso, nos próximos anos o organismo vai se adaptando e precisarei continuar me controlando. Para ter um peso dentro do parâmetro, serei obrigado a manter a tão famosa regra, queimar mais calorias do que consumir, caso contrário voltarei a engordar e terei um agravante, não existirá mais a chance de realizar esse tipo de cirurgia, então nos próximos anos o meu bem estar dependerá muito do meu hábito de vida saudável que me propus a fazer e ter.

E acreditem ou não, hoje a minha dificuldade, por incrível que possa parecer, está na manutenção do peso, tenho oscilado muito entre 72 e 74 kg, e o ideal seria manter algo entre 74 e 75kg. Então mudei os exercícios e estou adaptando alguns tipos de alimentos para ganhar massa muscular, até porque não quero ficar feito um esqueleto careca que fica perambulando por aí, né?

Acho que foi isso, após um ano estou satisfeito e com uma qualidade de vida bem melhor, então acho que valeu, mas a resposta exata acredito que terei daqui um ano, então vamos que vamos.

FONTE: http://g1.globo.com/platb/bem-estar-pensando-leve/

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